17.11.13

"Nos litorais desse Oceano Atlântico..." ♫

Postado por Alexandra Oliveira |

"Não troco minha onda pela de mais ninguém. 
A vida é um rito pagão." 
(Lulu Santos)

# O que sabemos de Poseidon?

Sabemos pelo site do theoi.com que ele é o deus do elemento fluido, que - como o mar circunda e sustenta a terra - ele mesmo é descrito como o deus que segura a terra ("gaiêochos"), e que tem o poder de sacudi-la ("enosichthôn", "kinêter gas"). Sabemos também que o símbolo de Poseidon é o tridente, ou lança de três pontas, o qual ele usa para despedaçar rochas, convocar ou subjugar tempestades, sacudir a terra, e coisas do tipo. Sua imagem não apresenta tanto da calma majestosa de seu irmão Zeus, mas o estado do mar é variável, então também Poseidon é representado às vezes em violenta agitação e às vezes em repouso. Segundo Heródoto, o festival celebrado em honra de Poseidon por 'todos os jônicos' perto de Mycale era a 'Panionia'. No Hino Homérico, ele é descrito como o "senhor dos cabelos escuros", e o hino pede "seja gentil de coração e ajude aqueles que viajam em navios". No Hino Órfico, também se fala dos "cachos escuros" do "deus de cabelos escuros", e pede "acrescente paz gentil, junto a uma saúde de belos cabelos, e verta abundância em uma maré irrepreensível".

# Como ele tem aparecido para mim?

Há uns meses, eu vinha numa onda de boa sorte. Ganhei vários sorteios no meu trabalho, inclusive uma viagem para Salvador para assistir a shows de música (entre eles o da Joss Stone). Eu estava tão movida de entusiasmo ('entheos' = ter um deus dentro), que comecei a selecionar e organizar em um livro os poemas que escrevo desde os 11 anos de idade, e voltei a escrever mais alguns. Acreditando que também fazia parte dessa boa sorte, surgiram algumas vagas para comissionamento no serviço. Mas levei duros golpes em ambas. A primeira acredito que por preconceito, a julgar por uma pergunta que me fizeram na entrevista e o fato de colocarem um homem no lugar. Um turbilhão de emoções (água) e sentimentos de ser injustiçada me invadiu e, como diz a via sacra, "caí pela primeira vez". A segunda por provável desonestidade e injustiça, já que fiz uma das melhores entrevistas da minha vida, mas na hora do feedback a gerente demonstrou nem saber de quem ela estava falando e descobrimos que aquelas vagas (em outra cidade) eram marcadas para pessoas que haviam sido relocadas de um órgão que foi extinto - ou seja, a seleção foi só fachada. Os dias que passam entre você achar que foi excelente na entrevista e a divulgação do resultado são sempre de muita tensão, de noites mal dormidas, de coração acelerado em ansiedade; ainda mais em uma situação em que eu iria mudar de cidade e pensava que era ação de Poseidon me empurrando para outros mares, uma vez que até sonhei com aquela música do Kleiton e Kledir que diz "Tenho os olhos no cruzeiro, as sereias como guia, e Netuno me protege noite e dia. E nem piratas, nem borrascas nem dragões vão me impedir de ser feliz, de levantar a minha âncora e partir..." Todos no trabalho e na minha família estavam seguros de que daria certo, ficamos surpresos. Mas não foi desta vez. E, nesse momento, eu nem chorei mais, senti até certo alívio de não ter que enfrentar uma mudança tão grande por um salário que nem era muito maior do que o meu. E aí descobri que meu pai estava com depressão por problemas financeiros, e precisei ajudar. Percebi que a situação é bem pior do que eu imaginava, e talvez tenhamos que nos mudar para uma casa menor. Nessas horas, refleti em como Poseidon me assusta (e não me assusto tanto com Ares). A depressão do meu pai estava começando a me afetar, porque o valor que utilizei ajudando-o corresponde a 5 meses do meu salário líquido, e porque isso nem vai resolver, porque mês que vem virão as próximas prestações das mesmas coisas. Enfim, essa série de acontecimentos ruins e eu sem entender por que os deuses me chamam pra uma seleção se eles não pretendiam me dar a vaga. Normalmente a gente só vai descobrir os motivos depois, mas também comecei a pensar que devo deixar de ser tão determinista. Talvez nem tudo o que acontece seja planejado. Talvez nem tudo seja planejamento e lógica, às vezes seja puro instinto e emoção. 

E, enquanto isso, sonhos, sonhos com a água invadindo os lugares onde eu estava. No último, me apareceu primeiro o Lulu Santos conversando comigo sobre esses acontecimentos (e, quando peguei as letras de dezenas e dezenas de músicas dele, notei que ele deve ser de Poseidon mesmo, rs). Depois a água começava a subir lá fora do apartamento onde estávamos. Eu ia até a janela e gritava para Poseidon, perguntando por que eu sonho tanto com a água do mar invadindo onde estou. Poseidon passava, azulado, com sua coroa e rabo de cavalo-marinho, me olhava e seguia pelo caminho sem responder; mas aí o "apartamento" girava (coisa que não acontecia nos sonhos anteriores) e eu percebia que estava era tipo em um barco. Do outro lado, tinham índios na praia com arco e flecha, aí eu girava de novo e no alto-mar tinha tubarão. Onde eu virasse, estaria em perigo. Ele não falou, mas mostrou; como se dissesse 'não reclama, que do outro lado também está ruim'. Ele girou o apartamento como se fosse um barquinho... 

Conversei com dois amigos, um deles também é líder na sua religião, a outra é uma curadora. Ambos sugeriram que eu parasse de dar meu dinheiro para meu pai e deixar que ele mesmo resolva suas dívidas, senão seremos os dois afundando. É, "afundando". Olha Ele. Começou lá com a Joss "Stone", passou pelo barquinho à deriva do sonho, e chegou no tufão e no terremoto das Filipinas. No meio disso, discuti e me entendi com um amigo que parece ser muito de Poseidon e acha que é de Zeus (assim como Poseidon queria ser Zeus na época em que os reinos foram divididos - ou assim como o Lulu canta que "o meu destino é ser star", rsrs). E eu aqui, ainda tentando entender Poseidon e suas marés, ainda acendendo vela pra ele, ainda saudando-o toda manhã em que passo em frente ao mar, resolvi recorrer aos meus estudos na psicologia.

# Quem é Poseidon para os psicólogos?

Vamos começar pelo ateniense Viktor Salis. Em seu livro "Mitologia Viva", ele afirma que Poseidon é a força do inevitável e do inadiável, das tarefas essenciais da vida, aquilo que se faz por necessidade e não por vontade. O tridente de Poseidon representaria a união do celeste com o terrestre e com o abissal. Essa mesma força que sacode as marés e os vulcões abalaria o nosso interior e nossa saúde física e mental quando não respeitamos nossos próprios ritmos e "marés".

Raïssa Cavalcanti, em "Mitos da Água" (que tenho um exemplar autografado), vai mais além. A princípio, Poseidon reinava sobre as águas do mundo ctônico, sobre as emoções mais profundas e inconscientes. Depois da vitória de Zeus sobre os Titãs e a divisão dos reinos, Poseidon ficou sendo o senhor do mar, um deus que possibilita o acesso a essas fontes internas de conhecimentos, sentimentos e emoções. Quando ele encarcera os inimigos no Tártaro, fechando sobre eles as pesadas portas de bronze, ele reprime os impulsos primitivos que poderiam perturbar a ordem da consciência. Ao mesmo tempo, Poseidon detém o poder fertilizador das águas, inclusive é associado ao cavalo e ao touro, ambos símbolos de fertilidade. O "sacudidor da terra", "o que faz nascer", também lembra sua ligação com Deméter, com quem se uniu em forma de cavalo. Na França e na Alemanha, se acreditava que o cavalo possuía o espírito do trigo, por isso se cuidava bem dele na época das colheitas. No xamanismo, o cavalo é como um psicopompo, que viaja entre mundos (podendo ser essa uma viagem da terra para as profundezas abissais do mar). Pégaso, o cavalo alado que Poseidon doou a Belerofonte, é símbolo da inspiração poética. Poesia! Raïssa diz que "Posídon é o deus detentor do grande reservatório de energia vital usado nos processos criativos e na possibilidade de transformação, transcendência e espiritualização dessa energia". Ela também afirma que "Posídon governa o seu império como deus justo e bondoso, mas que pode, em alguma ocasiões, se tornar violento. No entanto, quando isso só acontece, é apenas para corrigir e compensar a uniteralidade, a falta de equilíbrio. A Posídon é atribuído o domínio do medo, das coisas imprevisíveis, por isso ele costuma causar temor. Seu tridente é descrito pelos poetas como tão terrível quanto o raio de Zeus; podendo distribuir benesses ou castigos, podendo agitar ou acalmar as águas. (...) Ele dissolve provocando borrascas e tormentas, mas também pode acalmar a fúria do mar e fazer brotar nascentes". 

Voltando a essa questão da criatividade, a psicologia arquetípica também coloca Poseidon como um artista. Ele escolhe uma terra improdutiva sem nada e cria um mundo inteiro para si, cria a sua própria realidade, numa profundidade tão grande e escura quanto o próprio oceano. Ele sente as coisas muito intensamente (a água sempre esteve ligada ao emocional), e as expressa através de sua arte. Ninguém consegue conhecer totalmente esse mundo oceânico, mas esse mundo oceânico pode cobrir o nosso mundo sólido se ele quiser. Poseidon é senhor desse mundo. Aqueles que têm a sorte de receberem permissão para adentrá-lo, deveriam ser gratos e oferecer o devido respeito. Quando Poseidon está agindo, nós vivemos as emoções muito intensamente, e isso nos dá bastante coisa com a qual trabalharmos por uma transformação real. Entender essas coisas, vai lentamente elevar sua auto-estima e sua auto-aceitação.

Jean Shinoda Bolen, em "Os Deuses em Cada Homem", faz duas listinhas sobre Poseidon. Primeiro a de como reconhecer Poseidon ativo em sua vida, dizendo que devemos procurar por: fortes emoções encapsuladas em vez de expressões instantâneas; sentimentos fortes; raiva incontrolável; maus perdedores; desconforto com o mundo acadêmico e os reinos intelectuais; ações mais baseadas no instinto e nas emoções do que na lógica e no planejamento. A outra lista era de possíveis empecilhos para viver o arquétipo de Poseidon: ser visto como alguém emocionalmente instável e inapropriado; os homens serem criticados por conta de a demonstração das emoções não ser tradicionalmente aceita entre os homens; baixa auto-estima por a sociedade não permitir que você seja você mesmo. 

No "Tarô Mitológico", de Liz Greene e Juliet Sharman Burke, Poseidon é a Torre, e as torres sempre caem, as máscaras caem, as fachadas caem, para se revelar o real por trás das aparências. O terremoto de Poseidon sacode e derruba tudo. Como diria o Lulu, "não adianta fugir nem mentir pra si mesmo agora" e "demolirá toda certeza vã, não sobrará pedra sobre pedra".

[Imagem: Poseidon, por Buster Keaton]

# E agora?

Quando li sobre essas coisas, especialmente o "quando isso acontece, é apenas para corrigir e compensar a uniteralidade, a falta de equilíbrio", é que me lembrei que - antes de todo o estresse que vim passando - eu estava numa maré de boa sorte, e que a compreensão disso indica que agora vamos chegar a um equilíbrio, o suficiente para eu não ter de novo taquicardias e insônia.

Além do mais, de novo, 'talvez nem tudo seja planejamento e lógica, às vezes seja puro instinto e emoção'.

Ainda não tenho a resolução de muito do que relatei, preciso saber como vou ficar no trabalho, preciso saber como vamos resolver a situação financeira da família, preciso saber no que vai dar o livro de poesia, preciso saber os rumos dos novos projetos dos grupos de helenismo, preciso saber o que os deuses querem de mim para 2014... Mas, como viajo de férias no próximo fim de semana, vou manter a maré baixa e ver que transformação essa viagem pode me trazer, deixando os resultados para a volta, deixando pra tomar banho de mar quando a maré encher.

Acho também que vou dar uma de Lulu e "fazer da minha vida sempre o meu passeio público e ao mesmo tempo fazer dela o meu caminho só, único". Porque, aqui dentro, é sempre "como uma onda no mar".

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